WORK 01

Calligraphic Ottoman

Lady Lucas quieted her fears a little by starting the idea of his being gone to London only to get a large party for the ball.

Desde há vários anos que o vidro me inquieta quer pela sua aparente fragilidade – “cuidado, pode partir”- mas simultaneamente resistência. Inquietara-me perceber qual a razão porque tal matéria tinha apaixonado civilizações, continuando a ser suporte de inúmeras expressões e utilizações. Queria entender a sua aparente vulnerabilidade e o desejo de a expor e mostrar, o desejo de continuar a atravessar tempos e culturas, entender este médium enquanto matéria, objeto artístico, símbolo de uma civilização e de um tempo. Sendo a arte um lugar de constante inquietação e desconforto, um lugar de confronto e contemplação, procurei encarar o vidro com um outro olhar, o vidro não pela mera função, mas o vidro enquanto obra artística, enquanto parte integrante da natureza, um veículo para expor os meus medos e receios - o vidro enquanto transparência de mim.	
	Segundo Tait, já há 5000 anos que o vidro, como material, tem adquirido diversas aplicações, moldando-se ao modo como nos relacionamos com o mundo, quase como se tratasse de uma membrana permeável- ou como escreve Fernando Quintas, “uma membrana protetora”- a estratégias de sedução visual, com o potencial de estender e subverter a visão humana.	
	Repare-se que, a nível material, o vidro é, desde sempre, associado a operações óticas, contribuindo fulgurosamente para a transformação da ciência, tecnologia, arte e visão. Transparência, translucidez e brilho, são, de facto, características importantes do vidro que o tornaram um material capaz de demonstrar a transformação e os reflexos contínuos da imagem, dependente da luz, das variações climáticas e do movimento do sol. A arte em vidro revela o grande potencial de produzir obras de arte inovadoras e fruição do património pelo público. No entanto, perceba-se que o vidro, pela sua aparente fragilidade tem impedido a maioria dos artistas de empregá-lo em projetos artísticos.
	O meu pensamento inicial acerca desta obra recaiu na criação de uma colagem ou fusão de várias placas de vidro que juntas completassem um tronco real simulando a continuação do mesmo em vidro, como se o aparente frágil do vidro se equiparasse à fragilidade da natureza. No entanto, interessava-me também que se sentissem as texturas, que o toque sobre o vidro com seus relevos me tornasse mais próxima do natural.
	O projeto assenta em placas de vidro arredondadas não uniformemente, aproximando-se da irregularidade característica da natureza e, ao mesmo tempo, das placas de vidro Petri. Do mesmo modo que estas são usadas em laboratório para observar a evolução dos vários organismos como plantas, animais, microrganismos, interessara-me fragmentar em curvas de nível cada um dos ramos como se várias amostras laboratoriais se tratassem, como se pedaços de um terreno, de uma história, se tratassem. Experimentei vidros de grossuras distintas, desde os 3mm aos 8mm ou até 1 cm. Tentei que fossem encaixando rebeldemente continuando possíveis galhos, troncos de árvore, ramos. Experimentei vidros float de três qualidades distintas, sendo o mais recorrente um esverdeado, pautando-se por um esbranquiçado e terminando num amarelado. Tal irregularidade fazia parte do conceito do projeto, o aproximar o vidro da natureza – será que haveria formas perfeitas na natureza?
	Experimentei fundir folhas entre os ramos que acabaram por ficar esbranquiçadas. A meu ver, fiz o que ia sentido que o trabalho precisava. Se no início começara com uma referência clara ao trabalho de Celina Szelejewska-Pigulla, depressa percebi que este era apenas um ponto de partida. Talvez não fosse a questão microscópica o ponto fundamental onde me quereria focar, mas sim o seu formato e ideia de aproximação. Daqui nascem múltiplos desenhos que pretendem confrontar as minhas ideias com as da artista.
	Inspirei-me em artistas como Jeremy Sarmiento em suas gravações e seu modo de expor, como se de uma sucessão de fragmentos num esquema dominó se tratasse. “A vida secreta das árvores” de Peter Wohlleben é um livro que acompanha esta investigação e que me faz querer que à semelhança do mesmo, esta proposta procure explicar o que sentem as plantas, qual a sua realidade, enfatizando a cada fragmento a noção de tempo quase como se dos anéis da idade de um tronco se tratassem. Assim como o livro é escrito com textos soltos, pretendi que cada pedaço de vidro contasse uma história, permitindo que o espectador independentemente do local onde começasse a visionar a obra, perceberia a mesma como um todo entre várias partes que se completam. Libertei-me de geometrias e formas perfeitas, queria que cada um dos fragmentos se parecesse a um breve esquisso desenhado.
	Depressa me apaixonei pelas suas transparências, pelo modo como a luz o mudava e a influência que as suas sombras e texturas alteravam os modos de o ver. Ao realizar a fusão parcial que face ao tempo que esteve no forno se tornara semelhante a uma total, foi curioso perceber como a simples temperatura tornou o meu trabalho diferente do que esperava, mas curioso pela sua forma gelatinosa fomentada também pelo excesso de papel cerâmico por mim colocado à sua volta.
	Desenhei muito, vi muitas referências e fico feliz por ter conseguido alcançar com o vidro o propósito do meu projeto – a natureza e o vidro enquanto fragmentos de memória. 
	Porque a minha avó era uma apaixonada pela natureza.
	Em suma, talvez um simples ramo de árvore abandonado de Alberto Carneiro, aparentemente dispensável, umas simples manchas soltas de James B.Thompson ou formas texturadas como as de Carmen Vetter ou as fusões de imagens microscópicas de Celina Szelejewska-Pigulla ou as paisagens de Pablo Macho sejam o futuro presente do vidro. Pensarmos que tudo já vimos e que o caminho do vidro se esgota no vitral clássico, é, a meu ver, redutor. Repare-se que há lugar na arte do vidro para artistas como Ben Young com suas colagens de oceanos, Danny Lane com suas misturas de materiais ou mesmo Yogo Papadopoulos com seus estilhaços de vidro colados. É impossível não me apaixonar de imediato por artistas como Jon Kuhn e suas rochas de vidro ou mesmo por gravações como as de Alison Kinnaird ou de Jeremy Sarmiento.
	A questão que coloco é onde se esgotará o vidro e os modos de o ver e trabalhar? Quais os seus limites? Teremos de ser nós escravos do clássico ou haverá lugar para pensar o vidro enquanto matéria livre de dogmas. É hora de guiarmos os projetos ao limite, o vidro ao mais ínfimo silêncio. Chega! Percebamos que o vidro é muito mais que a simples matéria, o vidro é a transparência, luz, temperatura, uma aparente fragilidade sem frágil o ser!

WORK 02

Uncomfortable Armchair

A report soon followed that Mr. Bingley was to bring twelve ladies and seven gentlemen with him to the assembly.