Palavras-chave: Silêncio | Efémero | Reflexo | Madeira | Espectador
Como se o tempo pintasse por mim – Interpretação da obra emblemática “A Jangada da Medusa” de Théodore Géricault
2022 / Atelier II de Pintura

espelho, viochene, pedra.

Fig.2. O mastro. Pintura em campo expandido.
Ripas madeira 3 x 100 x 0,5cm e troncos e casca
de árvores húmidos
Um verdadeiro ícone do romantismo francês, A Jangada da Medusa de Théodore
Gericault é uma pintura a óleo de 1818-19 retrata o momento do avistamento do navio Argus
após o naufrágio da fragata francesa Meduse. A sua composição cinematográfica de corpos
contorcidos fora a documentação mais próxima do incidente. Do dramatismo do chiaroscuro
caravagesco à modelação clássica que lembrara Michelangelo, a acusação feroz ao governo
francês marcara a obra por retratar o contemporâneo.
Desde cedo me fascinara o tema sombrio desta obra. A sua composição radical e a
ausência de um centro rapidamente me inquietavam. Focara-me, na sua estrutura piramidal –
do cadáver pálido ao pináculo acenando com fulgor como um sinal se tratasse para um navio à
distância. Esta intensa cena sustentada por uma energia emocional depressa me fizera querer
estudá-la melhor.
Analisei diversas interpretações desta obra de artistas contemporâneos como Frank
Stella,Jeff Koons,Louise Fishman. Poderosas na presença física, tentei que as minhas
experimentações, à semelhança do trabalho de Fishman, se tornassem notáveis pela
incorporação de elementos conscientes e inconscientes. De abstrações emocionalmente
evocativas e sentimento entendido coletivamente, queria que se pontuassem pela energia focada
e recetiva às reações dos seus espectadores.
Mergulhando o espectador em diferentes vistas cinematográficas, o meu principal
problema parte do processo de construção da jangada e consequente solidão, silêncio e
abandono. Aproveitando a força da diagonal do mastro, tal composição vê pedaços de madeira
gastos que se destroem ao sabor do tempo – ecoando as formas e tons de Patrícia Garrido–
unidos entre agrafos, pregos enferrujados e até espelhos como se de pinceladas se tratassem.
Dos pregos recordam-se os sobreviventes, dos agrafos as cordas entrelaçadas da jangada,dos
espelhos as realidades.
A fragilidade das minhas construções compositivas, a brutalidade dos seus materiais
aumentavam a impressão de perigo que pretendia transmitir. Estaria interessada em retratar tal
obra à luz do meu tempo?
À semelhança da interpretação de Frank Stella e da sua experimentação, pretendia com
destroços de madeira esquecidos traduzir a cacofonia da jangada em ruínas–desde a sua
construção à destruição entre corpos sofredores sobre ondas quebradiças, idêntico a uma grade,
um sistema de fluidez semelhante ao lixo flutuando.
Todavia, à semelhança de Pedro Cabrita Reis, as minhas composições não são cativas
do acaso mas de um jogo entre elementos. Fixei-me no processo,na ferrugem,no intermediário
inerente a ação. Tentei que mesmo no caos da assemblage dos materiais se ouvisse o estridente
silêncio da jangada, se pudesse parar como Biberstein e escutar o nada.
Entre silêncios,a rede sobre tábua surge como tentativa de captar a potencialidade dos
materiais não cativos da sua funcionalidade convencional, o entre redes como se de uma prisão
se tratasse. Senti que esta pintura falara de tempo, cada prego unido de uma vida contada.
Em suma, penso ter atingido os meus objetivos, quer a nível compositivo, técnico e
narrativo evidenciando uma análise de abertura da destruição do homem figurada na minha ação
sobre a madeira, sobre tempo e história, uma ação de rutura, vazio, ausência.
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BIBLIOGRAFIA
A.ABBOTT, E. (2009). FLATLAND. Uma aventura em muita dimensões (Vol. 1). Lisboa: Assírio
e Alvim.
EDGE, A. (2006). O Deus da Primavera. Matosinhos: QUIDNOVI – Editora e Distribuidora.
FERREIRA, A. Q. (2009). Depois de 1950 (Vol. 1). Santa Maria da Feira: Edições
Afrontamento.
M. TAVARES, G. (2019). Atlas do Corpo e da Imaginação (A. P. CARVALHO Ed.). Lisboa:
Relógio d’Água.
MENDELSOHN, M. (2015). Why Géricault’s Raft of the Medusa Captured the Minds of Frank
Stella, Jeff Koons, Max Ernst, and So Many More. Retrieved from
https://www.artsy.net/article/artsy-editorial-why-has-this-painting-inspired-so-manycontemporary-artists
WIKIPEDIA. A Balsa da Medusa. Retrieved from
https://pt.wikipedia.org/wiki/A_Balsa_da_Medus
“A pintura enquanto movimento do silêncio”
(FERREIRA, António Quadros, 2009)










Fig.3,4,5,6,7. A Jangada Refletida. Os destroços. 3 tábuas de madeira 25x2x160cm, espelho, viochene, pedra, rede de galinheiro.
Fig.8 Em desconstrução. Ripas de madeira sobre MDF, agrafos, pregos. 42×59,4cm
Fig.9, 10, 11, 12. Entre. Ripas de madeira sobre MDF, pregos, espelhos. 50x40x25cm