Fragmentos de memória | A memória e o seu papel heurístico na compreensão da paisagem

Falar de memória é falar, segundo Nogueira Martins, de um processo de construção pessoal e espacial do sujeito, enquanto construção emocional do sentido de lugar e de construção identitária. Neste sentido, o estudo da memória enquanto problemática é crucial para entender
como as identidades são nutridas pelo sentido de lugar.

Neste projeto é desenvolvida a temática da paisagem – referente a memórias de infância associadas a cenas de construção e/ou ruína. A escolha deste tema surge pela minha admiração por toda a arquitetura da memória, pelo silêncio e nostalgia que estas paisagens me lembram.

É curioso que este projeto se inicie com o mote “A pintura enquanto movimento do silêncio”
3 e que deambule até à ruína/memória. No início interessou-me investigar, por meio da prática, as potencialidades do silêncio na pintura e perceber que nas décadas de 1950-1960, a ideia do silêncio era examinada em associação ao expressionismo abstrato e ao minimalismo. Havia uma suposição inicial de que a pintura silenciosa era simplesmente uma outra maneira de referência à pintura monocromática expandida para acomodar teorias que promoviam a tela como um dispositivo igualmente eficaz para alcançar o silêncio. Todavia, percebi que o que procurava era uma resposta, era um recordar e colar fragmentos. Assim, compreendi que o argumento cientificamente demonstrado de que o silêncio é impossível fora contrariado por um baseado no sentimento e pensamento – a memória.
Pretendi libertar-me da contenção, libertar-me para pintar a desenhar. Utilizando um material que não costumara usar deste modo, o pó de carvão, usei o meu corpo como se de um pincel se tratasse, descobrindo elementos novos a cada obra que surgira. Assim, as peças criadas até ao momento presente e às quais pretendo dar seguimento, são um constante desenvolvimento das que as antecederam, como se fosse um diálogo entre a paisagem recordada e o artista que matericamente a produz – um projeto em constante mutação que se subjuga ao ímpeto do gesto. O presente texto procura destacar a paisagem enquanto lugar de memória, a memória e o seu papel heurístico para a compreensão da paisagem, tirando partido de acontecimentos reais da vida como a morte da minha avó. Esta intensa dor sustentada por uma energia emocional, rapidamente me fez querer estudar melhor aquilo que sentia e o modo como o podia transmitir.

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